CORPO E OPRESSÃO

O Movimento e o Jogo: Suas Aplicações Pedagógicas

no Processo e Alfabetização

 

 

“(...) Meu corpo, meu agente,

meu envelope selado,

meu revólver de assustar,

tornou-se  carcereiro,

me sabe mais que me sei (...)”

 

INTRODUÇÃO

 

A importância do “jogo” no processo de desenvolvimento e aprendizagem infantil e suas aplicações pedagógicas, princi­palmente no processo de alfabetização, têm sido defendidas constantemente por professores e outras pessoas ligadas à área educacional.

Estudiosos como Claparède, Vygotsky, Piaget, Wallon, Pickard, Winnicott, M. Klein e outros procuraram interpretar e classificar o jogo, assumindo várias posições a respeito de sua importância e significado no processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança.

Porém, o que se vê no interior da escola, é uma aprendizagem apoiada em métodos mecânicos e abstratos, totalmente fora da realidade da criança, em que o corpo é apenas objeto de manipulação dos professores a serviço dos “conteúdos” escola­res, predominando durante as aulas a imobilidade, o silêncio e a disciplina rígida.

O presente estudo tem como objetivo identificar a funda­mentação teórica dos professores da pré-escola e de 1ª série do 1º grau sobre o movimento e o Jogo, verificando como é estabelecida a relação entre a práxis e a aprendizagem da criança no decorrer das aulas, apontando as principais contradições entre o discurso e a prática pedagógica, com base nas principais teorias a respeito do jogo ou brinquedo no processo de apren­dizagem e desenvolvimento infantil.

A seguir, apresentamos os aspectos metodológicos utiliza­dos e o perfil encontrado na sala de aula, bem como nossas considerações finais acerca de tudo o que foi estudado.

 

ASPECTOS METODOLÓGICOS

 

Neste estudo utilizamos métodos quantitativos e qualita­tivos inspirados na perspectiva da pesquisa participante. A investigação foi feita em todas as escolas públicas.

Foram estudados 15 professores (100%) da pré-escola e 1ª série (regular), dos turnos matutino e vespertino das quatro escolas públicas da rede estadual de ensino, localizadas na zona urbana (sede) desse município.

Operacionalmente, valemo-nos da observação e de ques­tionários elaborados com base no tema central do estudo, objetivando levantar dados que permitiriam avaliar o grau de coerência entre o discurso e/ou fundamentação teórica acerca do movimento e do jogo ou brinquedo e suas aplicações no processo ensino-aprendizagem.

Os dados foram coletados pelo próprio pesquisador dentro dos seguintes critérios:

 

1 — Observação direta das atividades desenvolvidas pelos pro­fessores, durante as aulas, num total de oito horas para cada professor, sendo duas horas de observação por dia em cada turma, totalizando 120 horas de investigação;

2— Posteriormente à observação, foram aplicados questionários de verificação do nível de informação teórico-científica do tema em estudo.

Os dados levantados foram categorizados, classificados e analisados, segundo dois critérios:

   avaliação do nível de informação da população acerca do tema central da pesquisa;

   avaliação do nível de coerência entre o discurso e a prática dos professores, analisando o grau de aplicabilidade dos pres­supostos teóricos em suas práticas pedagógicas.

 

APRESENTAÇAO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

 

O Movimento e o Jogo e suas Aplicações Pedagógicas

Toda nossa postura em relação à aprendizagem infantil vai depender do nosso conhecimento acerca do movimento do homem na história, não se podendo perder de vista o desen­volvimento humano (seu processo de auto e sócio-realização) historicamente contextualizado.

Para compreendermos este processo de educação pelo cor­po em movimento, necessitamos de uma visão geral das carac­terísticas do processo de desenvolvimento infantil. Podemos, assim, entender o processo e a amplitude das estruturas de natureza motora, cognitiva, social e afetiva, inter-relacionando o movimento corporal aos jogos e brinquedos da criança.

A análise a seguir mostra o conhecimento teórico levantado junto aos professores sobre o assunto, apontando as principais contradições entre o discurso teórico empírico e a prática dessas teorias no trabalho didático-pedagógico durante as aulas.

Segundo todos os professores envolvidos neste estudo, é muito importante conhecer o processo de desenvolvimento infantil. Para eles, o aspecto emocional é o mais importante deste processo.

A diversidade de opiniões nas justificativas e suas consta­tações, quando dizem ter pouco conhecimento sobre o assunto (sendo que 13,6% afirmam jamais ter lido alguma coisa a esse respeito), vem confirmar nossa posição inicial, isto é, não existe um conhecimento sólido sobre o tema em estudo por parte dos professores.

A partir dessa pouca fundamentação teórica, surge um distanciamento entre a teoria e a prática pedagógica durante as aulas.

Para confirmarmos nossa posição, buscaremos confrontar os conhecimentos teóricos levantados, com a prática dos pro­fessores durante as aulas, no período observado.

Na opinião de todos eles, o movimento corporal é impor­tante para o processo de desenvolvimento e as crianças neces­sitam movimentar-se durante as aulas para garantir seu processo de aprendizagem e desenvolvimento.

Por outro lado, o que encontramos em sala foi uma grande imobilidade por parte das crianças, com atitudes repressoras do professor em relação á movimentação das crianças durante as aulas.

Durante este período, o professor comandava toda a ação corporal dos alunos, preocupando-se excessivamente em colo­cá-los enfileirados, imóveis em suas carteiras, tendo como seu principal instrumento de manejo, muitas vezes, uma voz mecâ­nica, agressiva e autoritária.

Foram muito utilizados pelos professores, para esse con­trole mecânico dos alunos em suas carteiras, frases como estas: “não quero ninguém de pé”, “sente-se no seu lugar”, “não fique em pé”, “eu só quero o bracinho trabalhando”.

Existia uma preocupação tão grande em mantê-los quietos em suas carteiras que, em uma das salas observadas, um profes­sor chegou a dizer que iria trazer uma “corda” para amarrar um determinado aluno em sua carteira, pois o mesmo não parava em seu lugar. Mesmo assim, as crianças procuravam de todas as formas arrumar um jeito de movimentar-se, confirmando, no nosso entender, sua necessidade vital de movimentos.

O controle chegou a tal ponto que as crianças só se movi­mentavam, em algumas salas, com a autorização do professor, para beber água, fazer ponta no lápis, ir ao banheiro, ao quadro, à mesa do professor ou pegar algum material para ser utilizado.

Gostaríamos de destacar que tudo o que era realizado, após o início das aulas, era feito através de filas: filas para entrar, para cantar o hino nacional, para ir à aula de educação física, ao recreio ou escovar os dentes, enfim, fila para sair da sala para qualquer atividade, Durante as aulas, os alunos continuavam em filas, só que com uma diferença, sentados em suas carteiras.

Essa preocupação com a disciplina, ou melhor, com a domesticação do corpo, nos faz lembrar Foucault quando diz que a disciplina é anatomia política de detalhe”(1987: 126-127). Isso vem confirmar a atitude detalhista dos professores em relação às ações corporais das crianças, principalmente com a movimentação da cabeça; eles procuravam comandar os olha­res das crianças para que se fixassem ora no quadro, ora no professor, como por exemplo: “olhe para frente”, “não olhe para trás”, na o olhe para o lado”, “olhe para mim”, “preste atenção como eu escrevo no quadro”, “veja o movimento da minha mão”.

Esta postura autoritária confirma ainda mais as palavras de Foucault ao afirmar que a disciplina fabrica os corpos submis­sos, exercitados, corpos dóceis, pois para ele é dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado. E nesse sentido a disciplina aumenta as forças (em termos econômicos de utilidade) e diminuí estas mesmas forças (em termos de obediência).

E era através deste controle mecânico sobre o corpo da criança que o professor comandava a obediência às tarefas (exercícios) escolares durante as aulas.

A movimentação do professor durante as aulas, em 94,34% das situações, pretendeu o controle mecâ­nico das tarefas (exercícios) escolares nas carteiras dos alunos.

Após as explicações orais ou escritas, o professor caminha­va por entre as carteiras, com muita rapidez, distribuindo ou recolhendo materiais (folhas mimeografadas, cola, tesoura, ca­dernos de exercícios, tarefas de casa ou de aula). Em sua movi­mentação pela sala ele também arrumava as carteiras e o material dos alunos, tomava a lição, apagava os exercícios errados e tudo o que estivesse fora da ordem pré-estabelecida.

Alguns professores chegaram a pegar na mão dos alunos com maior grau de dificuldade, ensinando, por exemplo: cobrir letras, ou os “sobe-e-desce” dos exercícios mimeografados do período considerado, para eles, preparatório.

A rapidez com que tudo isso acontecia era impressionante. Pareceu-nos que o professor estava programado, dando a en­tender que ele tinha que prestar contas de um programa elabo­rado para obter o resultado imediatamente após suas intermi­náveis explicações orais, que eram repetidas várias vezes em coro pelas crianças.

As crianças reclamavam muito desta movimentação rápida do professor, devido ao excesso de exercícios impostos por ele. Na maioria das vezes, o término das aulas ou a saída da sala era um grande alívio para os alunos. Esta frase de uma criança ilustra muito bem o final das atividades: “Graças a Deus, graças a Deus”, como quem diz, “que alívio! terminou a tortura, o sofrimento!”

Para todos os professores consultados o espaço físico dis­ponível e a quantidade dos alunos em uma turma interferem no processo de aprendizagem e desenvolvimento, prejudicando, segundo eles, o atendimento individual que afeta diretamente na qualidade do ensino.

Concordamos com os professores a esse respeito, porém, como já comentamos, atender individualmente não é controlar mecanicamente as atividades em sala, mas sim, permitir que a criança tenha autonomia sobre o que ela esteja fazendo, ou seja, dar-lhe tempo suficiente para pensar, compreender e fazer. Pensamos não ser este o momento para discutir amplamente o conceito de autonomia, mas, neste estudo, buscamos o respaldo de Kamii (apud Piaget, 1990:113-124) quando nos fala que “autonomia significa ser governado por si próprio; é o contrário de heteronomia que significa ser governado por outrem”. Para Piaget, segundo esta autora, a essência da autonomia é que as crianças se tornem aptas a tomarem decisões por si mesmas, mas autonomia não é a mesma coisa que liberdade completa.

Portanto, controlar mecanicamente os atos das crianças nas aulas não é atender às necessidades individuais. Um atendi­mento individual significa levar em consideração os fatores relevantes para decidir e agir da melhor forma possível. Não concordamos com o fato de que haja qualidade de ensino num atendimento que considera apenas o ponto de vista do profes­sor, baseado, na maioria das vezes, em livros totalmente fora, não só da realidade dos alunos, como também dos professores.

Para confirmar nosso pensamento, fica a título de sugestão, uma análise do livro texto utilizado nas aulas pelos professores: Integrando Aprender, de Maria Eugênia Bebbucci e Luiz G. Cavalcante, 9ª edição, SP, Editora Scipione, 1990, o qual era seguido ao pé da letra pelos professores.

Neste contexto escolar, a aprendizagem mecanicista é rea­lizada pelo ensino verbalista, ou seja, a fala do professor deter­mina e comanda, na maioria das vezes, todas as ações (verbais e não verbais) da criança.

Pouco se viu, conforme o gráfico 3, de relação de interação entre professor e aluno e o conhecimento do seu aprendizado. O professor não se preocupava em estimular, facilitar ou criar situações de aprimoramento e desenvolvimento da linguagem das crianças durante as aulas. Ele apenas reprimia, proibindo qualquer manifestação de fala das crianças, mesmo afirmando em suas respostas que é importante que as crianças falem (diálogo), durante a realização das atividades escolares.

Segundo eles, a fala é muito importante para o desen­volvimento e apropriação do conhecimento pelas crianças.

As colocações dos professores sobre o papel da fala da criança no processo de desenvolvimento vão de encontro às suas próprias opiniões, quando eles avaliaram, dentro do grau de importância, “como” e “quando” as crianças devem falar durante as aulas. Somente 40% deles confirmaram que é impor­tante que as crianças falem durante a realização de qualquer trabalho escolar; 20% opinaram que elas deveriam falar somente no inicio da aula, e 13,3% foram taxatívos dizendo que elas deveriam falar apenas respondendo às perguntas do professor. Outros 6,7% apontaram a hora do recreio como o momento mais importante para as crianças falarem, enquanto 6,7% deles defenderam que a fala da criança deve ser livre e espontânea.

Isto confirma o ensino mecanicista verbalista do professor, como sua atitude repressora em relação à fala da criança, contrapondo também seus conceitos teóricos levantados a respeito do papel da fala. A criança foi proibida de falar em 93,75% das situações de fala durante as aulas.

Pelo que foi visto, a fala nas aulas pertence ao professor, através de sua expressão verbal. O professor comanda oralmente tudo o que está acontecendo e dirige todo o processo pedagógico durante as aulas.

Este controle mecânico das atividades aconteceu em 9,6% das situações, em tom muito agressivo. Se as crianças se manifestassem, sem a permissão do professor, eram imediatamente repreendidas com palavras como: “silêncio’, “psiu”, “calados”, “não falem”, “caladinhos”, ou batiam palmas, batiam nas mesas, no quadro, chamavam-nos pelos nomes, procurando silenciá-los ou imobilizá-los.

A fala do professor girava em torno do livro texto, citado anteriormente, utilizado através de exercícios escolares.

Para exemplificar, citaremos algumas frases utilizadas por ele: “eu quero letra bonita”, “este ‘a’ está horrível”, “não façam barulho”, “silêncio vire de frente , puxe o rabinho do ‘o’

“pode colar agora , tá errado” etc. Eles falavam muito também, pedindo aos alunos para completarem frases ou repetirem jun­tos, por exemplo: “Ele mora na ...“, ‘agora e a letra...”, “é ‘d’ de...”, “ba, be, bi, bo, bu”, “fa, fe, fi, fo, fu”.

Esta frase caracteriza muito bem a fala do professor durante as aulas: “eu falo, vocês ouvem em silêncio e obedecem”, ou seja, ouçam o que eu falo e façam o que eu mando”.

Apesar da proibição do professor, as crianças falavam mui­to nas aulas, principalmente as da pré-escola, que no desen­volver das tarefas (exercícios) escolares, falavam descontraida­mente como: ‘eu fui ao parque ontem, brinquei nos balanços”, ‘oh, já estou cansado”, “pára como isso , ‘tia, olha o fulano”, “tia, está na hora de ir embora...”.

Confirmando a opinião daqueles 13,3% de professores que disseram que o momento mais importante das crianças falarem e respondendo perguntas do professor, encontramos esse com­portamento em 29,54% das situações de fala da criança. Nestes momentos e1es eram solicitados pelo professor a repetir para fixar (segundo eles) os exercícios dados como: “a-e-i-o-u”, “a-ba-ca-xi “, “ba-be-bi-bo-bu”, “o boi baba”, “Zazá é a babá...”.

Pensamos que esta exclusão corporal, pelo excesso de verbalização do professor, exigindo silêncio, com poucas opor­tunidades e estímulo para as crianças falarem espontaneamente, anulou a fala livre e espontânea das crianças. Este tipo de fala só apareceu quando elas faziam suas tarefas, ou paralelamente à fala do professor, ou no desenvolvimento dos poucos jogos, onde algumas crianças apresentavam sugestões para o aconte­cimento dos mesmos.

Após o que já foi apresentado, gostaríamos de tecer alguns comentários sobre aprendizagem, desenvolvimento e lingua­gem, tomando por base Vygotsky (apud Davis & Oliveira, 1991: 47-53). Segundo ele, o processo de desenvolvimento é apropriação do conhecimento disponível na sociedade onde a criança nasceu. O funcionamento intelectual mais complexo desenvolveu-se graças às regulações realizadas por outras pes­soas, que gradualmente são substituídas por auto-regulamenta­ção.

Vygotsky dá uma importância tão grande ao pensamento verbal, que chega a afirmar que as estruturas de linguagem constituem as estruturas básicas da forma de pensar.

Como podemos ver, segundo Vygotsky, a linguagem é fundamental no processo de desenvolvimento e aprendizagem. Através da interação entre as crianças e adultos, dá-se a assim’­laçáo dos conhecimentos elaborados historicamente pelos ho­mens.

Pensamos que somente num ambiente de interação coleti­va - não em contextos onde a criança é apenas um mero recipiente, no qual o professor deposita um grande número de informações que são recebidas passivamente, mas sim em con­textos onde se colocam desafios para as crianças — elas serão estimuladas a desenvolverem-se cognitivamente.

Portanto, para Vygotsky, como também para nós, “a qua­lidade das trocas que se dão no plano verbal entre professores e alunos irá influenciar decisivamente na forma como as crianças tornam mais complexo o seu pensamento e processam novas informações”.

Para expressar nossa posição em relação a essa postura dos professores durante as aulas, faremos uso das palavras de Reale (in Revista da Faculdade de Educação de São Paulo, 1975: 17-18) ao dizer que “O ato de educar não é ato de mando. Iludem-se os professores que se colocam num pedestal, e jogam lá embaixo o aluno, os que pensam que educar é ditar, os que julgam que dar aulas é fazer ditados. E a triste ilusão de que o conhecimento é um monopólio do professor, sendo o aluno uma página em branco.”

Vejamos, a seguir, o que pensavam e o que faziam os professores em relação ao jogo ou brinquedo, durante nosso estudo.

Verificando suas respostas sobre este assunto, percebemos não haver, mais uma vez, um posicionamento consistente nem sobre a definição terminológica, nem sobre sua importância para o processo de desenvolvimento e aprendizagem infantil.

Na opinião de 40% deles, “jogo” é uma disputa, uma com­petição; 26,6% disseram que “jogo” é uma forma de se expressar e desenvolver física e mentalmente; 20% responderam que “jogo” é uma atividade que enriquece a aprendizagem, servindo para avaliar o conhecimento e também para um melhor relaci­onamento social do aluno; 13,4% deixaram de responder.

Porém, o complemento de suas respostas deixa mais clara a conceituação dos professores pois 86,6% deles confirmaram que o “jogo” é uma atividade diferente do ato de brincar, porque “jogo” é uma competição, uma disputa entre oponentes e o ato de brincar é espontâneo, fruto da imaginação das crianças. Para 13,4% dos respondentes não há diferença entre jogo e ato de brincar.

Para nós, o jogo não pode ser definido apenas como uma competição e nem ser considerado somente como fruto da imaginação das crianças. O jogo não pode ser confundido, principalmente por pessoas que lidam com crianças nesta faixa etária das séries iniciais de escolaridade, com esportes como futebol, basquetebol e outros mais sistematizados, por serem estes exemplos típicos de competição e de disputa. Estes carac­terizam um ensino voltado para seleção e promoção da indivi­dualidade. Eles contrariaram suas colocações quando disseram que o jogo é importante para o processo coletivo, ou melhor, que ele serve para um melhor relacionamento social.

Quanto à utilização dos jogos, todos confirmaram utilizar-se deles e deram vários exemplos do seu desenvolvimento nas aulas.

Sobre a configuração circunstancial dos jogos versus atividades didático-pedagógicas dos professores durante as aulas: dos jogos desenvolvidos, 8,11% foram jogos regio­nais/tradicionais; 6,76% foram criados de acordo com o tópico em estudo; 18,9% foram sugeridos pelos alunos; 12,37% de movimentação livre (a criança movimenta-se livremente), 54,06% destas situações de jogo pertenciam ao professor, pois ele comandava todas as ações corporais das crianças. Neste caso, não era permitido qualquer movimento que quebrasse a disci­plina imposta pelo professor. Na realização dos jogos, as crian­ças ficavam agitadas pelo excesso de verbalização do professor.

Para exemplificar e confirmar a postura dos professores em relação à teoria e às práticas dos jogos, descrevemos um jogo de uma das turmas observadas: a turma foi dividida em dois grupos, A e B; o professor escolhia um aluno para ir ao quadro e ditava uma palavra, por exemplo, “cuia”; a criança deveria escrever corretamente para que seu grupo marcasse um ponto. Durante o jogo, os alunos não podiam falar, tinham que permanecer sentados em suas carteiras aguardando sua vez (se desse tem­po). Era proibido falar ou levantar e o professor só faltava escrever para o aluno. Ele procurava controlar, dirigindo a escrita da criança no quadro (algumas vezes, chegou a pegar a mão do aluno). Quando o aluno escrevia corretamente, o res­tante de seu grupo não podia se manifestar-(comemorar).

Pensamos que se um dos obietivos explícitos da escola é a socialização, ela não poderia desenvolver um sistema de ensino competitivo, privilegiando a individualidade em detrimento do coletivo.

Apesar desta postura em relação ao jogo durante o processo pedagógico, 93,3% dos professores responderam que as crian­ças necessitam brincar para garantir seu processo de desen­volvimento. Apresentaram justificativas como estas: “a criança aprende melhor brincando”, “quanto mais ela tem tempo de brincar, mais aumenta a riqueza de seus conhecimento?, ou “brincando de fazer é que se aprende”.

Porém, mais uma vez, suas próprias respostas contradizem suas ações, como pudemos notar na seqüência deste trabalho. Ao indagarmos qual o momento e local mais importante da vida cotidiana em que as crianças necessitam brincar, 33,3% respon­deram ser a hora do recreio; 26,7% nos parques públicos e 13,3% na sala de avia em geral. Estas foram as três primeiras opções dentro d0 grau de importância por eles atribuído.

Gostaríamos de destacar que 6,7% da população afirmaram que o momento mais importante da vida cotidiana em que a criança necessita brincar é fora da escola.

Pensamos que estas opiniões contraditórias vem demons­trar que os professores não possuem um conhecimento teóri­co-científico sobre este assunto, como iá vem sendo apontado neste estudo.

Ao mesmo tempo em que eles diziam que o brinquedo é importante para o processo de aprendizagem e desenvolvi­mento da criança, eles colocavam “a hora do recreio e nos ‘parques públicos” como os locais mais importantes para as brincadeiras. Como quem quer dizer, o brinquedo é necessário

e Importante desde que não seja durante as aulas e que ele aconteça, de preferência, fora da escola.

A visão do jogo como competição aparece fortemente quando questionamos a seriedade do brinquedo para a criança, pois 93,3% dos professores afirmaram que o jogo é uma ativi­dade séria, porque ele desperta o espírito de competitividade no sentido de um exercício preparatório para a vitória e a derrota. Essas justificativas ilustram as opiniões dos professores: “e através do jogo que a criança aprende a competir e, desta forma estará se socializando”, “ele é sério porque todos se esforçam para ganhar”.

Este conhecimento contraditório encontrado, no nosso entender, trouxe como conseqüência a existência de poucos jogos e também a atitude repressora do professor na realização dos mesmos. O jogo, desta forma, perde seu caráter lúdico e passa a ser uma atividade mecânica, como o foi a maioria dos exercícios (tarefas) escolares nas aulas, constituindo-se numa verdadeira competição, onde o mais importante é vencer e não, participar. Com isso o jogo deixa de ser jogo, pois jogo para nós só é jogo quando seu objetivo está no seu próprio processo.

Nossa posição é confirmada também nas palavras de Leon­tiev quando diz que “Jogo não é uma atividade produtiva, seu alvo não está no resultado, mas na ação em si mesma (...) é necessário saber controlar o brinquedo da criança, é necessário saber como submete-lo às leis do desenvolvimento do próprio brinquedo, caso contrário haverá paralisação do brinquedo em vez de seu controle.” (in Vygotsky: 122)

Pudemos perceber que existiu uma grande preocupação por parte dos professores com a disciplina, exercendo um grande controle do corpo da criança em relação a todas as atividades durante as aulas.

Pensamos, como Freire (1989: 13-14) que pessoas ligadas à área educacional e, principalmente, professores das séries iniciais, como é ocaso destes que fizeram parte de nosso estudo, não poderiam esquecer que pelo menos até a 4a série dol0 grau a escola conta com alunos cuja maior especialidade é brincar.

Entendemos, como Freire, que o mundo da cultura infantil não poderia ser deixado de lado ao elaborarmos um programa curricular infantil. O jogo e o brinquedo, para nós, deveriam ser entendidos como disciplina fundamental, em se tratando de aprendizagem de criança.

Gostaríamos de expressar nosso posicionamento final des­ta parte do estudo, fazendo uso das palavras de Claparêdv

 

“O maior erro que se comete ao querer que a criança se esforce pelo sentido do dever, pelo simples respeito à disciplina abstrata, é esquecer que a criança não é um homem e que os valores reconhecidos pelos adultos cor­respondem nela a outros valores... Para as crianças, a brin­cadeira é o trabalho, o bem, o dever, o ideal de vida. Exigir da criança um esforço de trabalho fundamentado em algo diferente do ato de brincar, equivale a agir como o insensato que, em plena primavera, põe-se a sacudir a macieira em busca de maçãs: em vez de recolhê-las, derruba as flores, privando-se dos frutos que o outono prometia. (ín Correio da Unesco, 1991: 16)

 

CONCLUSÃO

Após a descrição do perfil da sala de aula dos professores pesquisados, faremos algumas considerações que entendemos como oportunas para o momento atual de nossa educação.

Por tudo o que foi verificado em nosso estudo, podemos afirmar que os conhecimentos adquiridos pelos professores, no período de formação profissional, estão defasados, longe de estarem alicerçados no próprio movimento cultural da huma­nidade.

O ensino, durante as aulas, muitas vezes foi uni castigo para os educandos, não deixando de ser também para os educadores, que se sentiam perdidos, por não compreenderem o significado histórico do seu papel no processo pedagógico.

Surgiu uma situação de insegurança do que fazer; ou me­lhor, “do porque , para que , para quem”, se está ensinando, encontrando-se assim, dificuldades de romper com os métodos tradicionais de educação. E, com isso, os professores se pren­dem em programas mecânicos e abstratos, totalmente fora da compreensão da criança, tornando o ensino sem significado para ambos.

Porém, longe de supor corro Sócrates (apud Linhares, 1991: 48) “que os erros são filhos da ignorância e que uma vez pesquisados os problemas, poderemos implementar soluções”, pensamos como Linhares (1991) quando diz que as pesquisas educacionais não apontam soluções absolutas, aplicáveis a to­dos os casos. Entre a pesquisa e suas aplicações, localizam-se canais que só serão percorridos mediante decisões políticas que em muitos casos envolvem recursos e um reordenamento do sistema escolar.

No nosso entendimento, não podemos depositar a respon­sabilidade desta situação encontrada nas escolas pesquisadas somente à desqualificação profissional, pois os problemas edu­cacionais não podem ser resolvidos isoladamente. Segundo Linhares, a “questão do magistério está associada historicamen­te à crise da sociedade que, por sua vez, se enraiza em questões que vêm sendo produzidas transnacionalmente”.(1991: 49)

Para nós, a problemática educacional não poderia ser solu­cionada somente por professores e outros profissionais ligados a escola, mas sim, de comum acordo com todos os segmentos sociais, principalmente com a participação da classe trabalha­dora, que tem sido, ao nosso ver, a mais prejudicada com a escola inadequada que temos hoje.

E preciso construir, no interior do sistema escolar, um processo permanente de discussões, contextualizando o mo­mento histórico, político e social.

A escola deve ser para nós um local permanente de produ­ção de conhecimento, através de experimentação, formulação e reformulação de perguntas e de busca de respostas e soluções.

Sob esta ótica, entendemos que a formação permanente do professor é uma prioridade urgente no contexto escolar.

A criança tem um corpo e está no seu corpo, e é um ser que construirá seu processo cultural pelo seu próprio corpo em movimento.

O homem é o movimento de sua própria história e, por isso, não podemos apresentar um estudo acabado.

Esperamos que este trabalho venha contribuir para a ela­boração de outros e que as pessoas envolvidas na área educaci­onal apresentem suas críticas, para que possamos continuar buscando juntos alternativas que realmente dêem significado à aprendizagem infantil.

SANTOS, C. A. Jogos e atividades lúdicas na alfabetização. Sprint: Rio de Janeiro, 1998. p. 21-40